“Eu queria parar de sentir isso.” É um pedido legítimo, e provavelmente o mais direto que alguém pode fazer diante da ansiedade.

Mas repare no que está embutido nesse pedido: a ideia de que a ansiedade é um erro de fabricação, uma peça defeituosa que precisa ser removida para que a vida volte a funcionar. É assim que ela costuma ser apresentada, e é justamente aí que o sofrimento aumenta.

O problema de tratar a ansiedade como inimiga

Quando você entende a ansiedade como defeito, cria uma segunda camada de sofrimento em cima da primeira. Além de sentir, você passa a se cobrar por sentir. Além do aperto no peito, vem o julgamento: “eu não deveria estar assim”, “as pessoas lidam melhor do que eu”, “já deveria ter superado”.

Essa cobrança não diminui a ansiedade. Ela alimenta. Você passa a monitorar os próprios sintomas, a temer o momento em que eles vão voltar, e o medo de sentir ansiedade se torna, ele mesmo, uma fonte de ansiedade.

É um ciclo conhecido, e ele não se rompe pela força de vontade. Ele se rompe quando a pergunta muda.

A pergunta que muda o processo

Em vez de “como eu faço isso parar”, a Análise Existencial propõe outra: o que essa ansiedade está tentando me mostrar?

Não é uma pergunta poética. É uma pergunta prática, e ela costuma ter resposta.

A ansiedade quase sempre aparece na fronteira entre o que você está vivendo e o que você sente que deveria estar vivendo. Ela se acende diante do que importa e está ameaçado, do que foi adiado por tempo demais, do que você aceitou sem nunca ter concordado de verdade.

Repare que essa leitura não trata o sintoma como o problema em si. Ela o toma como aquilo que convoca a olhar, e que aponta para alguma direção da sua história.

Compreender não é o mesmo que aceitar tudo

Aqui costuma aparecer uma objeção justa: “então eu tenho que aceitar a ansiedade e conviver com ela para sempre?”

Não. Compreender não é resignação. É o contrário.

Eu só consigo mudar aquilo que eu entendo. Se eu não entendo o que está acontecendo comigo, me resta repetir: repetir a mesma escolha, o mesmo padrão de relação, a mesma forma de me colocar diante da vida, e depois estranhar que o resultado seja sempre o mesmo.

Quando a mensagem da ansiedade se torna clara, ela deixa de ser um ruído aleatório e passa a ser informação sobre a sua vida. E informação sobre a própria vida é exatamente o que permite escolher diferente.

O objetivo do processo, na Análise Existencial, não é a supressão do sintoma. É encontrar e desenvolver uma existência mais livre, mais responsável e mais autêntica. A relação com a ansiedade se transforma dentro desse percurso, e não antes dele.

E quando a ansiedade parece não ter motivo?

Essa é talvez a situação mais angustiante: sentir e não conseguir explicar. Nada de objetivamente errado na sua vida, e mesmo assim o corpo em alerta permanente.

Nesses casos, a ausência de motivo aparente é ela própria a pista. Uma vida pode estar organizada, produtiva e reconhecida por todos, e ainda assim ser uma vida em que você não se reconhece. A ansiedade sem objeto costuma falar dessa distância entre a vida que se leva e a vida que faria sentido levar.

É um material difícil de acessar sozinho. Como eu digo no vídeo da página inicial, o sofrimento sempre carrega uma mensagem, só que essa mensagem muitas vezes é difícil de ser entendida sozinho. É justamente esse o trabalho que fazemos juntos em sessão.

Por onde começar

Se você chegou até aqui e se reconheceu em alguma parte do texto, uma sugestão simples: nos próximos dias, quando a ansiedade aparecer, em vez de tentar afastá-la, repare no contexto. Onde você estava, com quem, pensando em quê, prestes a fazer o quê.

Você não precisa chegar a nenhuma conclusão sozinho. No nosso encontro você não precisa chegar com respostas prontas sobre o que está acontecendo.

E se você quiser conversar sobre como esse processo funciona, é só me mandar uma mensagem. Não é preciso ter as coisas organizadas nem saber explicar o que está sentindo. Basta querer começar a olhar.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *